Este editorial propõe uma teoria evolutiva do lipedema, interpretando-o não apenas como uma disfunção, mas como um mecanismo ancestral de adaptação para armazenamento de energia, essencial para a sobrevivência feminina em épocas pré-históricas de escassez alimentar.
O tecido adiposo subcutâneo, característico do lipedema, teria fornecido vantagens energéticas, térmicas e cardioprotetoras para mulheres durante gestação e lactação, em contraste com a gordura visceral dos homens, voltada para mobilização rápida mas associada a maior risco cardiovascular. Assim, mulheres com predisposição ao lipedema poderiam ter sobrevivido melhor a fomes e climas hostis, garantindo a continuidade da prole.
Na era moderna, entretanto, fatores ambientais como poluição, estresse e dietas ricas em glúten amplificam a inflamação crônica, transformando essa vantagem evolutiva em um problema clínico. A inflamação é vista como o “sinal de alerta” que ativa esse mecanismo de retenção energética. O autor também relaciona o lipedema a condições como TDAH (76,9% das mulheres com lipedema no estudo apresentaram sintomas), sugerindo uma sobreposição de traços adaptativos que hoje se tornam desvantagens, mas que podem interferir na adesão ao tratamento.
Implicações clínicas
Tratamento cirúrgico extensivo (lipoaspiração) pode gerar insuficiência endócrina adiposa, já que o tecido adiposo é um órgão ativo na regulação metabólica.
Abordagens conservadoras — como dietas cetogênicas ou sem glúten, exercícios moderados, drenagem linfática e manejo do estresse — são defendidas como formas de restaurar o equilíbrio metabólico e reduzir a inflamação.
Estratégias individualizadas, considerando aspectos como TDAH, podem melhorar a adesão e os resultados clínicos.
Conclusão
O artigo defende uma visão holística e multidisciplinar, priorizando a redução da inflamação e a preservação das funções metabólicas do tecido adiposo. O lipedema deve ser reconhecido como uma condição médica legítima, com raízes evolutivas, e tratado de forma a respeitar o equilíbrio entre adaptação ancestral e desafios ambientais modernos .
